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História da Dor

A dor continua sendo uma das grandes preocupações da Humanidade. Desde os primórdios, conforme sugerem os registros gráficos pré-históricos e os vários documentos escritos ulteriormente, razões que justifiquem a ocorrência da dor e procedimentos destinados a seu controle nas variadas regiões do mundo recebem atenção especial da população leiga, de pesquisadores e de indivíduos envolvidos na assistência. A interpretação das dimensões da dor variou de acordo com cada sociedade e com o momento histórico em que esta se encontrava. Apesar de a dor estar inserida em uma categoria universal, ela não é expressa do mesmo modo em todas as culturas e talvez não seja sentida de forma idêntica por todos os indivíduos. O limiar para a dor varia não somente de um indivíduo para outro, mas também de acordo com sua cultura, ou seja, independentemente de suas bases anatômicas e fisiológicas. A dor parece ter fundamento cultural e social.

Nos textos cuneiformes da Mesopotâmia, nos papiros do Egito, nos documentos da Pérsia e da Grécia são expressadas a ocorrência e a atenção para com as conseqüências nefastas da dor como também para com o desenvolvimento de medidas visando seu controle. As histórias e as lendas versando sobre heróis, deuses e indivíduos com atividades comuns freqüentemente fazem referência à ocorrência de dor em vários momentos das suas vidas. Os povos primitivos e os muitos povos de diversas culturas ainda nos dias de hoje basearam-se em modelos pré-lógicos fundamentados na imaginação coletiva para justificar os mecanismos e os tratamentos da dor. Identificavam o homem e seu meio ambiente não diferenciando o interior do exterior e classificavam os fatos de acordo com idéias funcionais. Dor e inimigos eram colocados no mesmo nível. A dor era considerada ataque à pessoa, punição para uma falta ou atenuação de demônios ou de deuses e, eventualmente, dos inimigos do homem: a dor súbita causaria quebra inesperada e não previsível da relação entre o indivíduo e o meio ambiente; os homens e os animais reagiriam igualmente, com expressões de raiva ou de medo, correspondendo às reações de luta ou de ataque. Os povos primitivos distinguiam a dor ocasionada por fatores externos (queimaduras, feridas, fraturas, abscessos) e as de causa interna (dores abdominais, torácicas ou de cabeça), cuja razão lhes era impossível compreender. Os povos atuais usam argumentos lógicos para justificar ambas as condições.

Como durante os primórdios da Humanidade atribuiu-se a dor aos maus espíritos e às punições por faltas cometidas, a Medicina era exercida por sacerdotes que, a serviço de deuses, empregavam remédios naturais e acreditavam que as preces apresentassem efeitos terapêuticos. Além de aliviar a dor e perdoar as ofensas, usavam também feitiços e sacrifícios para proporcionar a imortalidade e a cura. Assim, com sacrifícios, suplícios e preces dos sacerdotes, os deuses lhes agradeciam proporcionando alívio.

O conceito religioso de dor é fundamentado na medicina clássica com Hipócrates:Divinunstest opus sedare dolorien (Sedar a dor é obra divina). Enquanto para causas externas o tratamento com remédios era, geralmente, muito eficaz, para dor de causa interna apelava-se para forças divinas a fim de que, mediante sacrifícios ou rituais, se expulsassem os maus espíritos. A observação da natureza proporcionou ao homem elementos para combater a dor e as doenças: analisou o fato de os animais banharem-se com barro para proteger-se das picadas dos insetos, observou como os cachorros purgavam-se comendo plantas e raízes, sentir estados de excitação ou sonolência ao ingerir determinadas frutas ou ervas. Indubitavelmente, os meios físicos e os remédios vegetais foram os primeiros instrumentos que o homem usou como analgésicos. Grande variedade de métodos empregados contra a dor no passado, incluindo rituais, uso de plantas medicinais, manipulações físicas, aplicação de calor, frio ou fricção, é utilizada ainda hoje. O pensamento lógico ulteriormente desenvolvido fundamentou-se em evidências mais concretas e procurou objetivar os fenômenos com achados comparáveis.

(texto extraído de: A DOR NA ANTIGÜIDADE: PUNIÇÃO DOS DEUSES À QUALIDADE SENSORIAL. Teixeira, Manoel J. e Okada, Massako)                                        

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